
No livro “O Atlântico negro: modernidade e dupla consciência”, Paul Gilroy introduz algumas orientações muito relevantes acerca das investigações no campo dos estudos culturais. A obra visa explorar e definir a modernidade a partir do conceito de diáspora negra, que constitui uma cultura (ou contracultura) específica dos grupos que navegam pelas rotas do Atlântico negro. Essa especificidade da formação política e cultural moderna a que o autor nomeia heuristicamente de Atlântico negro, pode ser definida, de certo modo, pelo desejo de transcender tanto as estruturas do estado-nação como os limites da etnia e da particularidade nacional.
Das rotas a serem tomadas por quem “navega” esse Atlântico negro, uma delas os levam a aportar na discussão sobre a música em relação à alteridade e à política. Em um de seus capítulos, Gilroy destaca que os debates contemporâneos sobre a modernidade têm em grande medida ignorado a música. Isso soa estranhamente, considerando que a maneira moderna de diferenciação entre o verdadeiro, o bom e o belo foi transmitida diretamente na transformação do uso político da cultura em geral, sobretudo na importância pública de todos os gêneros de música.
Através de uma discussão sobre a música e das relações sociais que a acompanham, o autor esclarece alguns atributos distintivos das formas culturais negras modernas. São modernas porque têm sido marcadas por suas origens híbridas e crioulas no Ocidente e porque têm se empenhado em fugir ao seu status de mercadorias e da posição determinada pelas indústrias culturais.
Gilroy sugere que o poder especial dessas formas culturais expressivas derivam de uma duplicidade, de sua localização simultaneamente dentro e fora das convenções, premissas e regras estéticas que distinguem e periodizam a modernidade. Esses modelos musicais e os diálogos interculturais para os quais eles contribuem refutam dinamicamente as sugestões hegelianas de que o pensamento e a reflexão superaram a arte e que a arte é oposta à filosofia como forma mais inferior. O autor argumenta que a música “pode ser usada para contestar a língua e a escrita como expressões mais proeminentes da consciência humana.” A música negra proporciona um contexto fértil para discutir a política para além da troca clara e racional de ideias que buscam a solução de problemas. Mais do que fornecer ferramentas instrumentais para a política, embora esta também seja uma possibilidade, a música fornece um ambiente onde a política e a sociabilidade são realizadas e implementadas. Contudo, a persistente modernidade dessas formas musicais negras exigem uma reordenação da hierarquia moderna de Hegel em relação às realizações culturais. Sendo assim, essa outra hierarquia nos afirma, por exemplo, que a música deve desfrutar de status superior, em função de sua capacidade de expressar uma imagem direta da vontade dos corpos dos sujeitos privados da experiência da liberdade.
Portanto, Gilroy vê na modernidade dessas formas culturais uma busca não apenas para mudar as relações das mesmas com a filosofia e a ciência, mas também rejeitar as categorias sobre as quais se baseia a avaliação desses domínios e, com isso, transformar a relação entre a produção e o uso da arte, o mundo cotidiano e o projeto de emancipação racial.

Fellipe Vasconcellos é historiador em formação pelo Instituto de História da
Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Possui interesse em áreas relacionadas aos Estudos de sociedades atlânticas, Escravidão nas Américas, História do Brasil colonial e História do Rio de Janeiro.
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