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As escolas de samba e o ensino de História

Foto do escritor: OutroraOutrora


O diálogo das escolas de samba do Rio de Janeiro com a História - e, consequentemente, com as produções historiográficas - iniciou-se na década de 1940, com o surgimento dos primeiros enredos históricos. Desde então, as instituições culturais recontam a História do Brasil em seus desfiles, narrando os grandes acontecimentos históricos do país (como o "Descobrimento do Brasil", a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República). Ao longo dos anos, as agremiações incorporaram elementos analíticos advindos dos debates historiográficos e exaltaram personagens da História Oficial, bem como revelaram personagens até então desconhecidos. O contato dos pesquisadores com as entidades carnavalescas se intensificou no findar do século XX, e hoje contamos com uma gama de pesquisas voltadas à cultura popular e ao samba - que, historicamente marginalizado, foi também mal visto e preterido por acadêmicos durante longos e imperdoáveis anos.


Contudo, se o diálogo da Academia com as escolas de samba tem sido crescente e se podemos observar atualmente uma grande quantidade de pesquisas voltadas às escolas, não podemos dizer o mesmo quanto à inserção de um direcionamento pedagógico nesses estudos. Isto é, se um historiador inicia seu trabalho de pesquisa debruçando-se em tais temáticas, dispõe de ricas e numerosas produções acadêmicas para consulta, mas se um professor de História deseja abordar em sala de aula a contribuição das agremiações carnavalescas aos acontecimentos históricos através dos modelos narrativos presentes nos enredos, encontra, ainda, dificuldades. Eis aqui a grande problemática do samba na Academia: o sambista ainda é tido, grosso modo, como mero objeto da História, e não como sujeito que narra a trajetória política do país em seus desfiles.


Entender a construção de uma memória social do Brasil nos enredos - por meio das narrativas carnavalescas - é tarefa fundamental para o historiador e docente que pretende não apenas estudar e analisar o sambista, mas compreender e incorporar em sala de aula a sua intepretação discursiva da História do Brasil através dos desfiles das escolas de samba. Escolas essas que, lamentavelmente, afastaram-se dos enredos históricos e/ou voltados à cultura brasileira desde a virada do milênio (que fora fortemente marcada pela presença cada vez maior de temáticas patrocinadas e personagens internacionais desfilando na passarela).


Entretanto, para o Carnaval de 2018 - cuja realização encontra-se submersa num oceano de incertezas advindas das reduções na subvenção estatal e do desmonte nas Artes e na Cultura a nível nacional -, as escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro abordarão em seus enredos os 200 anos da Escola de Belas Artes da UFRJ, a História da Escravidão, a trajetória do Museu Nacional e a saga das matriarcas negras da humanidade. Tais propostas acenam para a perspectiva que entende as escolas de samba como entidades de vanguarda na resistência à ofensiva conservadora que se impõe, de forma cada vez mais preocupante, institucional e socialmente. Mais que isso, aponta para a interpretação da escola de samba enquanto organismo vivo que lê o mundo à sua volta e narra a História a partir de seu contexto, ao construir um projeto de identidade nacional próprio (que merece a atenção dos pesquisadores e principalmente dos educadores). Definitivamente, o lugar do sambista não é apenas nos artigos, ensaios, monografias, dissertações e teses, mas também em sala de aula.





*Gabriel Henrique Caldas Pinheiro é graduando em História pelo Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (4º período) e atua como monitor pedagógico na Oficina das Artes SJC. Sua pesquisa acadêmica, desenvolvida no Laboratório de História, Cinema e Audiovisualidades, volta-se para a análise das representações carnavalescas nos enredos dos desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Entre seus temas de interesse, além dos estudos voltados às narrativas históricas presentes em manifestações artísticas da cultura popular, estão as áreas de História do Brasil República e História do Rio de Janeiro.

 
 

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